A franquia "Resident Evil" é livremente adaptada dos games. O
primeiro longa da série foi divertido, trazendo perseguições realmente
tensas e uma história razoavelmente envolvente. Nos filmes seguintes, no
entanto, a qualidade decaiu gradativamente, chegando ao seu pior
momento com "Resident Evil 4: O Recomeço".
Dirigido novamente por Paul W. S. Anderson, o filme começa com os clones de Alice invadindo a sede da Umbrella Corp. em Tóquio.
O líder da base, Albert Wesker, escapa, mas não sem antes injetar um
soro em Alice, tornando-a uma humana comum novamente. Alice parte então
em busca de Arcadia, lugar no Alasca onde estariam os humanos livres da
infecção do T-Virus. Ao chegar lá, ela se depara com um lugar
abandonado, e parte novamente em busca de sobreviventes, encontrando
novos aliados e inimigos pelo caminho.
O roteiro mais uma
vez é um mero pretexto para as cenas de ação. Nenhum personagem é
satisfatoriamente desenvolvido. Nem mesmo o reencontro entre dois irmãos
carrega alguma emoção. As atuações são nulas, completamente vazias, com
os personagens limitando-se a fazer caras feias nas cenas de tiroteio,
que por sinal são bastante exaustivas. Em nenhum momento tememos pela vida de qualquer protagonista, já que não chegamos a sentir empatia por nenhum personagem. Isso sem contar a unidimensionalidade do vilão, que simplesmente mata um subordinado ao ser desobedecido.
A direção de P. W. S. Anderson é problemática, limitada. O diretor contenta-se em criar um novo "Matrix",
criando incontáveis cenas em slow motion, o já desgastado bullet time e
as roupas pretas da protagonista. Até mesmo a cena em que Trinity pula
de uma janela atirando é recriada, mostrando a total falta de
criatividade do diretor.
As cenas de ação são extremamente
burocráticas, até cansativas pela repetição. Até mesmo os zumbis, que
deveriam ser os principais antagonistas, são deixados de lado,
aparecendo pouquíssimas vezes sem criar qualquer ameaça mais
consistente. O final aberto deixa espaço para uma nova continuação,
lançada em 2012, mas a decepção maior parte do fato que a franquia de
jogos é muito mais tensa e interessante do que os filmes de "Resident
Evil". A série mais famosa de jogos de terror merecia pelo menos um
filme à altura.
Os irmãos Peter e Bobby Farrelly alcançaram o sucesso dirigindo filmes como "Débi & Lóide" e "Quem Vai Ficar Com Mary". Após um tempo fazendo filmes medianos, os dois voltam à sua melhor forma com a ótima comédia "Passe Livre".
No filme, Rick (Owen Wilson) e Fred (Jason Sudeikis) são dois homens de meia-idade, casados, mas que não conseguem conter seus instintos adolescentes de olhar para belas mulheres. Os dois imaginam que se fossem solteiros fariam de tudo, e conseguiriam a mulher que quisessem. Indignadas com as atitudes adolescentes de seus maridos, Maggie (Jenna Fischer) e Grace (Christina Applegate) decidem dar a eles um passe livre, que consiste em uma semana de folga do casamento, sem compromisso algum, para que ambos façam o que quiserem sem nenhum tipo de remorso.
Assim como em "Débi & Lóide", os diretores apostam no constrangimento de seus protagonistas para fazer rir, como na cena da masturbação de Fred no carro, ou naquela que considero a melhor cena do filme, quando Rick e Fred zombam dos donos da casa que visitavam e de seus convidados sem ao menos imaginar que estavam sendo vistos e ouvidos. Mas se no filme estrelado por Jim Carrey os personagens principais divertiam por serem absolutamente retardados, aqui temos uma dupla mais experiente, com trabalhos fixos e um lar para sustentar, mas igualmente estúpida e hilariante.
O longa é absurdamente engraçado, provocando gargalhadas do início ao fim. Fred mostra-se completamente sem noção (no bom sentido) ao chegar de carro a um bar e carregar consigo um capacete de motociclista, dizendo que "as gatas adoram motos". Os dois quarentões saem na noite em busca de mulheres, mas o esforço deles é frustrado pela sua total incapacidade de chegar em uma garota, usando de cantadas enferrujadas que parecem ter sido retiradas do programa do Rodrigo Faro, "O Melhor do Brasil", gerando mais momentos hilários.
Talvez a maior força do filme esteja em usar algumas piadas várias vezes sem parecer forçado, fazendo com que elas tornem-se mais engraçadas a cada vez que são usadas, como as "fotos mentais" tiradas por Fred no início e por Rick perto do fim do filme. Ou quando Fred revela o "truque do sexo oral" em uma mulher para usá-lo mais tarde e causar uma briga na última cena. Outras cenas também merecem destaque, como por exemplo quando os protagonistas, acompanhados de alguns amigos, experimentam brownies preparados com maconha. Mas realmente inesquecíveis são as piadas escatológicas, como quando um personagem diz que tem que ir ao banheiro de casa porque sabe que depois tem que tomar banho, ou quando uma coadjuvante senta-se na banheira fazendo força para vomitar e acaba sujando toda a parede do banheiro após alguns "gases não controlados".
O que torna os protagonistas tão frustrados e engraçados é o fato de não conseguirem ficar com mulher nenhuma mas mesmo assim sentirem remorso, ao passo que suas esposas curtem a semana de folga sem qualquer arrependimento, o que era a verdadeira premissa do "Passe Livre". Com um elenco inspirado e diretores mais inspirados ainda, o filme é a prova de que Peter e Bobby Farrelly não perderam o jeito das suas melhores comédias.
É inegável a influência de "Cidadão Kane" no modo como se faz cinema atualmente. Pioneiro em vários aspectos, o longa de 1941 é uma marco na história cinematográfica, sendo considerado pelo American Film Institute como o melhor filme de todos os tempos. Mas o que torna esse filme tão aclamado? Quais os motivos para considerá-lo o melhor de todos?
O filme começa com o já decrépito Charles Foster Kane (Orson Welles, impecável), dizendo sua última palavra antes de morrer: Rosebud. Em seguida, somos apresentados à vida de Kane em uma reportagem que falava de sua morte e de suas conquistas em vida, como a compra de vários jornais, sua entrada na política, seus dois casamentos frustrados e sua mansão megalomaníaca Xanadu, onde ele tinha um zoológico particular e uma coleção infindável de itens raros de todas as partes do mundo.
Após essa introdução, tem início uma investigação minuciosa para tentar desvendar o que significava a última palavra proferida por Kane. Personagens importantes na vida de Kane são entrevistados, relatando sua vida, suas vitórias e seus fracassos. Rosebud acaba tornando-se apenas um pretexto para descrever com riqueza de detalhes a vida do magnata precursor da imprensa sensacionalista.
A grandiosidade de "Cidadão Kane" está em seu principal personagem. Não é Charles Foster Kane, mas sim o ator que o interpreta: Orson Welles, então com 26 anos, que aqui acumula também as funções de roteirista e diretor, executando com maestria todas as três funções. Seu roteiro primoroso foi agraciado com o Oscar de Melhor Roteiro Original. Sua atuação é grandiosa, conferindo veracidade e peso a um personagem tão marcante. É interessante notar as mudanças na personalidade de Kane,que no início é um jovem cheio de energia e planos, mas com o passar do tempo torna-se amargo e distante, algo retratado com maestria por Welles.
Mas Orson Welles consegue ser mais brilhante ainda na direção do longa. Mostrou estar à frente de seu tempo, influenciando os filmes até hoje. Para se ter uma ideia, "Cidadão Kane" foi o primeiro filme a usar flashbacks para contar sua história. E se comentei que em "A Conquista da Honra" os flashbacks enfraqueciam a narrativa, aqui eles são parte da história, sendo essenciais para o desenvolvimento da trama. Foi também o primeiro filme a ter uma narrativa não-linear, quando o filme começa do final e vai se desenvolvendo com saltos no tempo. Tecnicamente, Orson Welles também foi pioneiro. Seu filme usou planos de filmagem e movimentos de câmera inéditos para a época, influenciando produções até os dias atuais. A maquiagem de Welles é impressionante para a época, retratando com fidelidade cada fase de sua vida e tornando-o irreconhecível com o passar do tempo.
É uma pena, portanto, que após esse filme tão maravilhoso, Welles não tenha conseguido emplacar nenhum outro sucesso. Tudo isso graças à influência negativa de William Randolph Hearst, magnata das comunicações da época que teria inspirado a história de "Cidadão Kane" e a composição do personagem principal. Vários pontos da vida de Hearst foram trazidos para a tela, como sua mansão megalomaníaca, seu modo sensacionalista de vender notícias, sua influência na política americana e outros detalhes que fazem do filme uma verdadeira biografia não-autorizada do empresário.
Hearst fez com que várias portas se fechassem a Welles, obrigando o jovem diretor a se ocupar de produções menores. "Cidadão Kane" foi esquecido por muito tempo, até que foi redescoberto há algumas décadas e estudado com cuidado. Suas críticas à imprensa marrom e à influência dos poderosos são temas atemporais, fazendo com que o filme não envelheça. Hearst pode até ter feito com que Welles não tivesse tanto sucesso, mas certamente seu nome só é lembrado por sua associação com o gênio que foi Orson Welles. Se "Cidadão Kane" é o melhor filme de todos os tempos não cabe a mim decidir, graças a Deus, mas é inegavelmente um clássico que deve ser assistido por todos aqueles que amam a Sétima Arte.
Filmes de guerra dificilmente dão a mesma atenção aos dois lados do combate. Geralmente os americanos são os protagonistas, os heróis responsáveis por livrar o mundo de alguma ameaça, seja ela na Segunda Guerra Mundial, no Vietnã, ou no Afeganistão. Os inimigos são sempre mostrados como genocidas cruéis, ao passo que os soldados dos Estados Unidos são certinhos, incorruptíveis, sempre prezando pela honra e justiça. Clint Eastwood resolveu fazer diferente ao mostrar os dois lados de uma mesma história: a batalha na ilha de Iwo Jima, no Japão, na Segunda Guerra. Mas em vez de fazer um filme ele criou dois, sendo um visto pela ótica dos americanos, "A Conquista da Honra", e outro apreciando o lado japonês da história, "Cartas de Iwo Jima".
"A Conquista da Honra" é um longa baseado no livro "Flags of Our Fathers", que conta a história de soldados americanos alçados ao posto de heróis nacionais ao terem hasteado a bandeira americana no alto de um monte na ilha de Iwo Jima, dando assim a falsa ideia de que a batalha havia sido vencida. Três dos soldados são trazidos de volta aos Estados Unidos para serem usados na campanha de arrecadação para o fundo de guerra americano. O filme se baseia mais na campanha e nos conflitos internos dos personagens do que nas batalhas propriamente ditas. Mostra o jogo sujo do governo para manipular os verdadeiros fatos, maquiando a verdade para parecer mais bonita aos olhos do público e assim arrecadar mais.
Os três soldados viajam pelos Estados Unidos como heróis de guerra, pedindo apoio público para o financiamento da guerra. Mas eles sabiam que não haviam feito nada de mais. A bandeira foi hasteada no quinto dia de batalha, sendo que ali ficaram combatendo por mais trinta e cinco dias após o ocorrido. E a bandeira da famosa foto tirada por Joe Rosenthal era a segunda a ser hasteada, já que a primeira havia sido retirada minutos antes. E ambos sabiam também que não eram heróis. Um era mensageiro, o outro era enfermeiro, e o último era apenas um soldado comum, não tendo eles feito nada de mais honroso para merecer tal título.
O longa traça bem o retrato norte-americano da época na composição do soldado Ira Hayes, vivido por Adam Beach. Ira é descendente direto de indígenas, sendo recriminado por onde passa. A sociedade americana da época tratava os índios como inferiores, não os permitindo sequer entrar em um bar. Adam Beach interpreta Ira competentemente, compondo o personagem mais rico e tridimensional do filme.
Clint Eastwood demonstra competência na direção do filme. Os planos abertos que trazem os navios perfilados no mar são de tirar o fôlego. As cenas de batalha, ainda que escassas para um filme do gênero, são maravilhosas; são filmadas com o céu nublado, o que confere um ar mais tenso às cenas. O diretor também acerta ao mostrar pouco os soldados japoneses, sendo que os americanos são atingidos sem que vejamos de onde partiu o tiro ou quem o disparou. Eastwood é competente ao preferir mostrar os dramas de cada soldado com o fardo que é obrigado a carregar para o resto da vida em vez das incessantes e sangrentas batalhas.
Eastwood também não deixa a desejar na técnica do filme. A belíssima fotografia retrata a crueza da guerra, sendo dessaturada, quase sem cor. Os efeitos especiais são extremamente competentes, dando realidade às batalhas.
É uma pena, portanto, que a narrativa não-linear acabe por comprometer o resultado final. As idas e vindas da história nos permitem descobrir, por exemplo, quem vai morrer e quem não vai, tirando assim o impacto das cenas. Os flashbacks constantes tornam-se cansativos a partir da metade do longa, cortando a ação e o ritmo nos momentos mais frenéticos. O longa também pesa a mão no forçado tom documental da parte final, tentando amarrar o longa inteiro em alguns minutos de explicação.
Pode-se assim dizer que Clint Eastwood criou um belo filme sobre de guerra e seus efeitos na vida dos que a ela sobreviveram. Mas deve-se ressaltar que ele foi muito mais feliz ao contar o lado japonês da batalha em seu "Cartas de Iwo Jima", mostrando assim que mesmo que se dê atenção aos dois lados da história, um sempre será melhor conduzido do que o outro.
“Amor e
Outras Drogas” é uma comédia romântica transformada em drama. O filme de 2010 é
dirigido por Edward Zwick, que também assina o roteiro com mais duas pessoas.
O longa conta a história de Jamie
Randall (Jake Gillenhaal), um vendedor de uma loja de eletrônicos com um
talento nato para conquistar mulheres. Demitido da loja após ter um caso com a
namorada do chefe, Jamie começa a trabalhar como representante de uma gigante
indústria farmacêutica, e logo é designado a trabalhar em uma cidade
interiorana. Com seu talento para vendas, ele logo passa a acompanhar o
trabalho do doutor Knight (Hank Azaria) na tentativa de empurrar seus
antidepressivos aos pacientes do médico. A única consulta que acompanhamos com
Jamie é a de Maggie (a bela Anne Hathaway), uma jovem com acometida
precocemente com o mal de Alzheimer.
Jamie e Maggie começam a se
relacionar, mas a garota não quer nada sério, preferindo limitar-se a encontros
sexuais. Ela preferia viver sozinha, sem compromisso, para que ninguém se
prendesse a ela devido a sua doença. Jamie inicialmente aceita, mas passado
algum tempo ele passa a buscar algo mais duradouro, mesmo que isso signifique
deixar de lado a carreira promissora e se dedicar integralmente à namorada.
O romance entre os dois
protagonistas é bem construído, sem soar artificial ou forçado. Há uma química
inegável entre os dois. Anne Hathaway emociona nas cenas
mais dramáticas, em uma de suas melhores atuações, sendo a melhor coisa do
filme. Já Jake Gillenhaal é bastante competente como Jamie, o conquistador
inveterado que se apaixona, exceto na cena em que ele diz “Eu te amo” pela primeira
vez, completamente forçado. Mesmo assim, o casal foi indicado ao Globo de Ouro
daquele ano, reconhecendo assim o trabalho competente de ambos.
O grande problema de “Amor e
Outras Drogas” reside na troca constante de tom da narrativa. No início temos o
humor escrachado, carregado de palavrões e nudez exagerada e gratuita. Em
seguida acompanhamos o desenrolar do romance, onde se situam os melhores
momentos do longa. E ao final há a transição para o drama, quando Maggie passa
a ter sintomas mais fortes de sua doença e Jamie parte em busca de tratamentos
para a amada. Talvez o diretor tivesse tentado criar uma comédia diferente dos
clichês do gênero, mas acabou forçando a mão. Mesmo nas cenas de drama, durante
uma separação do casal, o diretor insere o humor exagerado, completamente fora
de hora, tirando o impacto e a emoção da narrativa.
O roteiro é interessante, mas tem
suas falhas. É difícil aceitar, por exemplo, que médicos, pacientes e enfermeiras
estejam tão maravilhados com o Viagra vendido por Jamie que cheguem a cercá-lo
para receberem suas amostras, numa das cenas mais sem sentido. Ficamos sem
entender como Maggie se sustenta, sendo que mora sozinha e aparentemente não
trabalha, mas é perfeitamente capaz de andar com um maço de notas ao ir a uma
consulta com o médico. E parece também que os sintomas da doença são causados
pela presença constante de Jamie, já que afloram ainda mais à medida que o
relacionamento avança, e simplesmente some ao final, quando Maggie já passou
algum tempo longe do namorado. E como
engolir o irmão de Jamie, que mesmo sendo mais rico que seu irmão mais velho,
vai morar com ele, sendo um peso desnecessário na narrativa?
Em contraponto aos defeitos, o
drama vivido pela personagem de Hathaway é bem explorado e tocante. Observe por
exemplo seu apartamento bagunçado, que denota a instabilidade e inconstância da
protagonista, que vive um dia após o outro tendo a arte como ponto de fuga para
seus problemas. É emocionante, também, quando Jamie é confrontado com a
possibilidade de passar o resto dos dias com Maggie, cuidando de suas
necessidades fisiológicas à medida que a doença progride. É comovente perceber
o empenho de Jamie na busca por um tratamento, viajando para diferentes
hospitais em busca de algo que torne mais suportável a existência de sua
companheira.
Balanceando erros e acertos,
“Amor e Outras drogas” é um passatempo interessante, que seria infinitamente
melhor se o diretor deixasse de lado as picardias adolescentes e focasse mais
tempo no teor emocional de seus personagens.
Tim Burton é um diretor famoso por explorar o gótico e o estranho em suas obras. São dele os fascinantes "Edward Mãos-de-Tesoura", "O Estranho Mundo de Jack" e "Os Fantasmas se Divertem", só para citar alguns de sua era mais bem-sucedida. E é nesse perfil sombrio mas divertido que se encaixa "A Noiva-Cadáver", ótima animação de 2005 filmada em stop-motion (técnica que utiliza bonecos de "massinha" em vez da computação gráfica).
Baseado em um conto russo do século XIX, o roteiro conta a história de Victor Van Dort (voz de Johnny Depp), obrigado por seus pais a casar-se com Victoria Everglot (Emily Watson), proveniente de uma família falida a qual só restou o nome. Victor se apaixona por Victoria, mas não consegue declarar seus votos durante o ensaio do casamento. Envergonhado, ele sai pela floresta ensaiando os tais votos, até que põe a aliança em um galho seco que logo se revela ser a mão de Emily, uma Noiva-Cadáver (Helena Bonham-Carter). Agora casado com Emily, Victor é levado ao mundo dos mortos, onde ainda planeja retornar à sua noiva viva.
Desenvolvendo-se com um ritmo empolgante, devido aos seus poucos 77 minutos de duração, o filme mantém o espectador inserido naquele fantasioso mundo de caveiras, cadáveres, aranhas falantes e minhocas que moram no cérebro. Burton nos apresenta um universo rico em detalhes e formas. Cada personagem tem fica marcado por sua característica física distinta, algo bastante evidenciado pelo contraste entre os pais de Victoria: enquanto sua mãe é alta e esguia, seu pai é baixo e arredondado. Já a Noiva-Cadáver é talvez a personagem mais rica visualmente. Mesmo com o corpo em decomposição, ela consegue ser bela e meiga, o que é realçado pelas suas feições brilhantemente construídas. Sempre é possível perceber quando ela está irritada, ou triste, ou feliz, graças às suas expressões cuidadosamente desenhadas. Ponto para a técnica de stop-motion empregada pelo diretor, que de tão fluida e bem feita, em alguns momentos pensamos estar assistindo a uma animação feita por computador.
Victor tem sua constituição física bem parecida com a de seu dublador, Johnny Depp. Esguio, pálido, de cabelos negros e olhos profundos, é mais um personagem feito sob medida para o ator, algo não muito raro de acontecer. Depp já protagonizou dezenas de filmes de Burton, assim como a esposa do diretor, Helena Bonham-Carter, que aqui interpreta a Noiva-Cadáver. Após esse, a parceria Depp-Burton-Helena já rendeu "Sweeney-Todd", "Alice no País das Maravilhas" e mais recentemente "Sombras da Noite".
O filme é visualmente belíssimo, algo recorrente na filmografia do diretor. O mundo real e o mundo dos mortos são perfeitamente divididos por seu visual. Enquanto o preto-e-branco predomina no mundo dos vivos, trazendo uma atmosfera fria e sem vida, o mundo dos mortos traz uma energia e uma riqueza de cores impressionante, sendo justamente o que dá personalidade ao longa. As cenas que se passam no mundo real são apáticas, indiferentes, acentuando ainda mais o contraste entre os dois mundos.
Apresentando uma surpresa após a outra no que tange à inventividade dos personagens do mundo dos mortos, a cada momento somos apresentados a sacadas brilhantes, como a empolgante banda de esqueletos, os cadáveres decompostos tomando drinques ou até mesmo um anão que tem uma espada atravessada em seu corpo, sendo esse último utilizado por Victor para se defender num dos momentos mais inspirados do longa. Todo o humor presente é bem amarrado à história, criando cenas hilárias desde o começo, quando o protagonista tenta por várias vezes acender a vela que segurava.
Mas apesar de toda a estética impressionante e a personalidade já citadas, "A Noiva-Cadáver" padece de um mal cada vez mais comum: o final politicamente correto. (Só leia a partir daqui se já tiver assistido ao filme, para não estragar nenhuma surpresa) Mesmo tendo Victor passado mais tempo de projeção com Emily, e o longa tendo nos feito nos afeiçoar mais à personagem da Noiva-Cadáver, o diretor decide por manter Victor preso ao mundo dos vivos, ficando assim com Victoria e vendo Emily se desfazer em centenas de borboletas, após ter sido "liberta". Uma bela cena, mas que só serve para confundir a narrativa e diminuí-la em seu principal momento.
Mas esses pequenos detalhes não estragam esse belo filme. Por todo o conjunto, "A Noiva-Cadáver" merece créditos pela coragem de mostrar personagens visualmente assustadores em uma animação. Por sua estética impecável e pela trama bem construída e conduzida, além do bom humor presente do início ao fim, o longa é uma agradável e emocionante história de amor.
Título original: The Curious Case of Benjamin Button
Gênero: Drama, romance
Ano de lançamento: 2008
Direção: David Fincher
Elenco: Brad Pitt
Kate Blanchett
Taraji P. Henson
Julia Ormond
Como seria sua vida se, em vez de nascer jovem, crescer, se desenvolver, e morrer velho, você fizesse o caminho inverso? Se por acaso você nascesse com corpo de um idoso de 80 anos, e com o passar do tempo, fosse ficando mais jovem? Como seriam seus relacionamentos, seus amores, seus temores? São essas perguntas que movem o belíssimo "O Curioso caso de Benjamin Button", dirigido por David Fincher. O roteiro, escrito por Eric Roth, é uma adaptação livre de um conto de F. Scott Fitzgerald de 1921.
Benjamin Button nasce em 1918, ao final da Primeira Guerra Mundial, em Nova Orleans, Estados Unidos. Sua mãe morre no parto, e seu pai, imaginando que o bebê fosse um monstro, abandona-o em frente a um asilo. Na verdade, seu problema é ter nascido com aparência de um idoso de 80 anos, juntamente com diversas enfermidades senis, sendo avaliado pelo médico como tendo pouco tempo de vida. Ele é criado por Queenie (Taraji P. Henson), e, ao contrário do que todos esperavam, ele cresce e rejuvenesce a cada ano que passa, intrigando quem convive com ele. Depois de algum tempo, ele conhece Daisy Fuller, que, na versão adulta interpretada por Kate Blanchett, viria a se tornar o grande amor de sua vida.
Partindo de um conto fantasioso, que poderia gerar um filme vazio, ou até mesmo estranho, o longa torna-se interessante pela reflexão que faz da vida. Button, interpretado por Brad Pitt, é um personagem triste, que ao avaliar sua condição, se dá conta de que verá todos aqueles que ama partirem enquanto ele fica cada vez mais jovem e belo. Isso torna-se um problema ainda maior quando ele avalia seus relacionamentos amorosos, já que para sua companheira o tempo passaria normalmente e ela se tornaria uma mulher de meia-idade e em seguida uma idosa, mas para ele seria peculiarmente doloroso ser um homem de meia-idade e depois um adolescente, para em seguida ser criança.
Benjamin torna-se marujo de um rebocador, e viaja pelo mundo com seus companheiros, mas sempre enviando cartões postais para Daisy. Nessas viagens ele conhece Elizabeth Abbott (Tilda Swinton), que viria a ser sua primeira grande paixão. Voltando para os Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, ele fica sabendo que Thomas Button (Jason Flemyng) é seu pai, que, arrependido por tê-lo abandonado, decide deixar toda sua fortuna para Benjamin.
Os aspectos técnicos do filme são espetaculares, tendo sido agraciados com três Oscars. Os efeitos especiais são impressionantes, com destaque para a composição de um Brad Pitt senil com pouco mais de um metro de altura. A maquiagem é belíssima, criando cuidadosamente a aparência de Benjamin no começo do longa e de Daisy no final, além da mesma na cama do hospital, tornando Kate Blanchett irreconhecível. Outro ponto de destaque é a fotografia, escurecida na infância/velhice de Benjamin e dourada no seu auge físico.
David Fincher consegue criar um filme belíssimo do ponto de vista
técnico sem esquecer de dar a devida atenção à história. O diretor
divide bem as fases da vida de Benjamin, sendo um visual escuro no
começo, quando ele está debilitado e passa a maior parte do tempo dentro
de casa. Até o dia surge escurecido, quase sempre nublado. Assim que
ele cresce e sai de casa, percebemos o sol raiar, dando indícios da fase
dourada. O mar, onde o personagem vive um bom tempo de sua vida, nunca é
ensolarado, surgindo sempre entre nevoeiros, ou neve, ou tempestades. Mas é só no auge do seu vigor físico que vemos longos períodos ensolarados.
Mas "O Curioso Caso de Benjamin Button" não vive só dos premiados aspectos técnicos. A composição dos personagens também é brilhante. Kate Blanchett cria uma Daisy determinada, apaixonada por balé, com personalidades diferentes a cada fase da vida. Se quando jovem ela é intensa, tagarela, sonhadora, ao chegar a certa idade ela já está mais madura, séria, devido aos desencontros proporcionados pela vida. Brad Pitt encarna o personagem título com segurança. Demonstra felicidade a cada nova descoberta na infância, mas também tristeza e dor a cada perda.
O que move o longa é o amor entre Benjamin e Daisy. Apaixonados desde cedo, nunca puderam se entregar um ao outro completamente, seja por "diferença" de idade, seja por momentos diferentes da vida. É uma história marcada por desencontros até a metade do filme, quando os dois, no auge de suas vidas, decidem viver juntos o amor guardado por anos. E é por amor a Daisy e à filha que Benjamin decide deixá-las, já que em suas condições de rejuvenescimento não poderia ser um pai que a garota precisava. E é a partir desse instante que a trama até então melancólica torna-se triste. As cartas lidas por Caroline ilustram bem o amor do pai que teve que se afastar da filha, mas que nunca a esqueceu.
Mesmo que nenhum de nós viva como Benjamin Button, somos capazes de sentir empatia, devido à emoção que a trama nos passa. A história nos prende, sem se tornar cansativa em momento algum, mesmo durando mais de duas horas e meia. Somos envolvidos na história de tal maneira que saímos da sessão cansados, como se tivéssemos vivido anos a fio com cada personagem. Mas o que realmente marca o filme é a mensagem que ele passa e a reflexão que causa no espectador. Somos levados a refletir sobre nossa vida, nossas escolhas, nossos relacionamentos. Somos confrontados várias vezes com a morte, e levados a pensar se damos a devida atenção às pessoas que nos cercam. Tanto que, numa cena no começo, certo personagem diz: "Nós temos que perder as pessoas que amamos. De qual forma mais saberíamos o quão importantes elas são para nós?" Uma perda é sempre um golpe, mas devemos aprender a lidar com elas.
Também é um filme sobre a beleza da vida, e do quanto é importante ela ser vivida. Assistir ao filme nos faz lembrar de que precisamos ser felizes, precisamos viver. Encerro com outra bela citação do filme, que mesmo dita por um personagem idoso, se encaixaria perfeitamente se imaginássemos nossos defeitos no lugar dos problemas desse senhor: "Sou cego de um olho, não ouço
muito bem.. tenho espasmos musculares e tremores continuos, às vezes
perco a linha do pensamento... Mas sabe de uma coisa? Deus tem me
lembrado sempre da sorte que tenho por estar vivo". E isso basta para tornar "O Curioso Caso de Benjamin Button" inesquecível.