domingo, 17 de fevereiro de 2013

Opinião: O Senhor dos Anéis: As Duas Torres

Avaliação:

Título Original: The Lord of The Rings: The Two Towers
Gênero: Aventura 
Ano de lançamento: 2002
Direção: Peter Jackson
Elenco: Elijah Wood
             Ian McKellen
             Viggo Mortensen
             Sean Astin
             Liv Tyler
             Orlando Bloom
 
       No começo de "As Duas Torres", é explicado o que houve com Gandalf (Ian McKellen) em sua luta com o temido Balrog. Frodo (Elijah Wood) e Sam (Sean Astin) continuam sua jornada em busca da Montanha da Perdição, onde destruirão o Um Anel. Aragorn (Viggo Mortensen), Legolas (Orlando Bloom) e Gimli (John Rhys-Davies) partem para resgatar Merry (Dominic Monaghan) e Pippin (Billy Boyd), sequestrados pelos uruk-hai.
      Frodo e Sam percebem estar sendo perseguidos por Gollum, e o aprisionam. A criatura se oferece a levá-los ao seu destino, em troca de ser solto da corda élfica que o machucava. Frodo aceita, e até se compadece da situação de Smeagle, nome de Gollum antes de ser modificado pelo Anel. Mas Sam não tem pena da criatura, contrariando-a sempre que possível. Frodo começa a demonstrar indícios de que também está sendo afetado pelo Anel, tornando-se mais agressivo e impaciente com Sam.
      Longe dali, Merry e Pippin aproveitam um combate entre os orcs e os uruk-hai para fugirem para a floresta, habitada por árvores gigantes e sábias conhecidas como ents. Eles tentam convencer os ents a ajudarem os humanos em sua batalha contra as forças de Sauron e Saruman, mas os sábios mostram-se relutantes. (Alerta de spoiler: não leia a partir daqui se ainda não tiver visto o filme) Seguindo o rastro dos hobbits, Aragorn e seus companheiros entram na floresta e são surpreendidos pelo mago branco: Gandalf, que havia derrotado seu inimigo e se tornado mais poderoso do que já era. Eles partem juntos para o reino de Rohan, onde o rei Théoden está preso em um  feitiço de Sauron. (Fim dos spoilers)
      "As Duas Torres" tem um desenrolar mais lento que seu predecessor. Os diálogos são bem mais trabalhados, deixando um pouco a ação de lado. Os personagens estão mais ricos, ambíguos, com dúvidas. Frodo chega até a puxar a espada para lutar com Sam, seu melhor amigo. Faramir (David Wenham), irmão de Boromir, demonstra indecisão ao sequestrar os pequenos hobbits, querendo tomar o Anel para si mas ao mesmo tempo sentindo pena dos pequeninos em uma jornada tão difícil. Mas ninguém demonstra tanta ambiguidade quanto Gollum/Smeagle. Inicialmente disposto a roubar o Anel que passou tanto tempo com ele, a criatura passa a mostrar um lado mais dócil. E é aí que surge o ótimo combate psicológico entre sua parte boa (Smeagle) e sua parte má (Gollum). A persona gentil se sobressai, chegando até a caçar para os hobbits e despertando uma amizade com Frodo, a quem chama de mestre. É sem dúvida o melhor personagem de toda a série.
      Peter Jackson faz um ótimo trabalho de direção, ainda mais seguro. Além de uma abordagem mais intimista dos personagens, o diretor sente tanta segurança a ponto de modificar um pouco a história original. Mesmo que tenha acendido um ódio dos leitores mais radicais da obra de J. R. R. Tolkien, Jackson se saiu muito bem, tornando a história mais ágil e empolgante. Os fãs de obras literárias e até alguns críticos devem se abster das reclamações, pois devemos sempre avaliar livro e filme separadamente. Muitas vezes ouço, ou leio: "Ah, o livro é bem melhor", ou "Como estragaram a obra que eu tanto gostava". Mas nada foi estragado, nada foi "modificado". Foi, sim, criada uma nova obra baseada em um livro. Se essa adaptação for ruim ou não estraga o livro, torna-se apenas um filme ruim. Longe de dizer que "O Senhor dos Anéis: As Duas Torres" seja ruim, muito pelo contrário.
      Os planos abertos, assim como em "A Sociedade do Anel", são um espetáculo à parte. As cenas de ação são filmadas com maestria, tendo destaque a incrível batalha no Abismo de Helm. Humanos, elfos e um anão protegendo uma fortaleza cercada por cerca de dez mil inimigos, entre orcs e uruk-hai. O enfrentamento é muito bem filmado, mesmo sendo à noite e debaixo de muita chuva. Peter Jackson conseguiu recriar uma das maiores batalhas da literatura mundial em forma de filme, tornando-se assim uma das melhores cenas de batalha da história do cinema.
      Novamente somos presenteados com uma técnica primorosa. Desde a fotografia épica até a direção de arte construindo lindos cenários internos, ricos em detalhes, passando pelo figurino, tudo segue o padrão Peter Jackson de qualidade. Mas o que se sobressai são os efeitos visuais, vencedores do Oscar. O diretor e sua equipe trazem para a tela de modo perfeito a criação de Tolkien, antes considerada infilmável, seja pelos hobbits menores que humanos, seja por árvores que andam e falam, mas principalmente por Gollum. Nunca antes tivemos um personagem criado por animação computadorizada tão real. Andy Serkis emprestou seus movimentos e sua voz para o personagem, sendo assim responsável pela ótima "atuação". O ator contracenava com Elijah Wood e Sean Astin, para que depois fosse substituído pelo boneco digital, tornando a atuação de seus parceiros mais fácil e real.
      "As Duas Torres" se encerra com a ótima frase proferida por um importante personagem: "A batalha por Helm terminou, mas a batalha pela Terra Média está apenas começando". O ótimo longa tem personalidade própria, gerou polêmicas entre os fãs dos livros, mas prepara muito bem o terreno para o desenrolar da história: a grande batalha contra as forças de Saruman e a árdua jornada para a destruição do Um Anel.



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Opinião: "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel"

Avaliação:

Título original: The Lord of The Rings: The Fellowship of The Ring
Gênero: Aventura
Ano de lançamento: 2001
Direção: Peter Jackson
Elenco: Elijah Wood
             Ian McKellen
             Viggo Mortensen
             Sean Astin
             Liv Tyler
             Orlando Bloom

       Foi em 2001 que conheci a Terra Média, uma terra mágica habitada por hobbits, magos, anões, elfos e também por orcs, nazgûl, trolls e uruk-hai. Eu tinha apenas 13 anos, não tinha acesso aos livros de J. R. R. Tolkien, e quando descobri esse mundo mágico, fiquei maravilhado. Não por ser uma história fantasiosa cheia de efeitos especiais mirabolantes ou cenas de ação espetaculares, como a maioria das crianças/pré-adolescentes avalia um filme. Me encantei com a saga por causa de seu ritmo ágil, por realmente ter uma história empolgante a se contar. Diferentemente dos guilty pleasures da nossa infância (aqueles filmes que gostávamos, ou gostamos até hoje, mas que com o passar do tempo percebemos os furos imensos), "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel" é aquele tipo de filme que se torna melhor a cada revisita.
      O longa começa com a narração em off de Galadriel (Cate Blanchett), contando a história do "Um Anel" forjado por Sauron para conquistar os reinos da Terra Média. O rei dos humanos, Elendil, é morto por Sauron. Seu filho, Isildur, toma a espada do pai e decepa o dedo de Sauron, que portava o Anel. O inimigo é enfim derrotado, e Isildur, quando recomendado a destruir o Anel, é seduzido por ele, e toma-o para si. O novo rei dos humanos torna-se arrogante sob efeito da jóia, mas logo a perde. O tempo passa, o Anel está nas mãos de Bilbo (Ian Holm), um hobbit de 111 anos, mas que não aparenta mais de 60. O mago cinzento Gandalf (o ótimo Ian McKellen, que também interpreta brilhantemente Magneto na trilogia "X-Men") percebe que seu amigo está demorando mais do que devia para envelhecer, e se dá conta que o hobbit porta o Anel. O mago então convence Bilbo a deixar o Condado, e o Anel é entregue a Frodo (Elijah Wood), um jovem hobbit sobrinho de Bilbo, para que esse o leve para o vilarejo de Bree, onde eles decidiriam o que fazer.
      Frodo parte, acompanhado de seu melhor amigo, Sam (Sean Astin), mas não sem antes encontrar mais dois dos seus: Merry (Dominic Monaghan) e Pippin (Billy Boyd), dois hobbits ávidos por aventuras e criadores de confusão. Eles conhecem Aragorn (Viggo Mortensen) herdeiro direto do trono de Gondor, que lhes oferece proteção até eles encontrarem novamente Gandalf. Mas nem tudo sai como o esperado, e eles são atacados por Nazgûl, espectros protetores do Anel, almas dos antigos reis da Terra Média que foram corrompidos pelos anéis criados por Sauron, que agora estava juntando forças para retornar à vida. Frodo é gravemente ferido, e é levado às pressas para Valfenda, território dos elfos. Lá, instaura-se uma reunião que decide que o Anel precisa ser destruído, e apenas uma pessoa pura, inocente e corajosa poderia levá-lo. Frodo se oferece a portar o objeto até à Montanha da Perdição, em Mordor, território de Sauron. Alguns se prontificam a acompanhá-lo: seus amigos hobbits; Aragorn; o elfo Legolas (Orlando Bloom); o anão Gimli (John Rhys-Davies); Gandalf; e Boromir (Sean Bean), filho do regente de Gondor. Assim forma-se A Sociedade do Anel.
      O Anel, com toda a maldade de Sauron, influencia seu portador. Somente alguém de coração puro como Frodo poderia portá-lo sem ser corrompido. O sábio Galdalf usaria o Anel sem pretender mal algum, mas temia que a jóia o usasse com objetivos escusos, o que o tornaria mais letal por ser um mago. Já Boromir pretendia tomar o Anel, pois pensava que assim seria invencível diante dos inimigos. A ambiguidade do personagem é algo que torna o filme ainda mais rico. Não são todos os personagens completamente bonzinhos, assim como nós humanos não somos completamente bonzinhos. Temos defeitos, falhas, ganância, somos corruptíveis, e isso é bem ilustrado em toda a história, onde mais tarde há brigas, desentendimentos, intrigas.
      O ritmo imprimido pelo diretor Peter Jackson é ágil. A história não fica parada, a cada momento somos surpreendidos com novos fatos, batalhas, perseguições, o que torna agradável a experiência de mais de três horas. Os planos criados por Jackson são belíssimos, usando locações naturais em paisagens espetaculares na Nova Zelândia. As cenas de ação são perfeitamente coreografadas e filmadas. A montagem é ótima, sem cortes abruptos, permitindo que acompanhemos o que acontece nas cenas mais movimentadas.
      A parte técnica é impecável, tendo sido premiada com quatro Oscars: melhor maquiagem, melhores efeitos visuais, melhor fotografia e melhor trilha sonora. Essa última é responsável por dar ainda mais um tom épico à narrativa. Já a fotografia é muito bem executada. Temos o incrível contraste de muitas cores no Condado com o tom quase monocromático de Isengard e Mordor, territórios malignos onde predominantemente temos tempo escuro ou com chuva, passando ainda pelo dourado dominante em Valfenda. Tudo isso sem criar diferenças gritantes entre os ambientes, permitindo ao espectador perceber cada isso como parte de um todo, tornando tudo orgânico.
      Temos ainda os espetaculares efeitos visuais. Seja na batalha inicial na derrota de Sauron, nas aparições dos sombrios espectros, na batalha de Gandalf com o Balrog, ou simplesmente por transformar homens normais em anões ou hobbits, somos agraciados com efeitos de primeira, que acrescentam um ar de naturalidade à narrativa, ajudando na imersão do espectador à história. Ainda merecem ser citadas a maquiagem e a direção de arte. A primeira é responsável pela incrível caracterização dos orcs e dos Uruk-hai, assim como o tom de pele perfeito dos elfos e suas orelhas pontudas. A direção de arte cria lindos cenários e ambientes com um detalhismo impressionante. Isso sem citar o figurino, que mesmo sendo para uma história de magos, elfos e hobbits, torna tudo bonito e natural sem ser brega.
      Talvez a maior virtude de "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel" e suas duas sequências seja contar uma história fantasiosa sem se tornar infantil, e isso graças a Peter Jackson. O brilhantismo do filme reside na capacidade do diretor de tornar um livro de 468 páginas cheias de cânticos em uma história épica e forte, sem descuidar da parte técnica e das características próprias de cada personagem. Como é bom voltar à Terra Média. Sempre que possível, faça o mesmo!


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Opinião: "Se Beber, Não Case - Parte II"

Avaliação:

Título original: The Hangover Part II
Gênero: Comédia
Ano de lançamento: 2011
Direção: Todd Phillips
Elenco: Bradley Cooper
             Ed Helms
             Zach Galifianakis
             Nick Cassavetes

       Quando assisti a "Se Beber, Não Case", de 2009, experimentei uma comédia completamente nova, empolgante do ponto de vista narrativo. É um filme ágil, com uma piada por cima da outra, superando e muito a maioria dos longas do gênero. É uma pena perceber, portanto, que sua continuação acabe de certa forma decepcionando, caindo nas armadilhas comuns e deixando a inventividade de lado para apostar em repetições e exageros.
      Novamente, o longa gira em torno de uma despedida de solteiro mal sucedida. Dessa vez, o casamento é de Stu (Ed Helms), na Tailândia. Alan (Zach Galifianakis) não gosta da ideia de ter um intruso no bando: Teddy (Mason Lee), o irmão da noiva. Stu, Alan e Phil (Bradley Cooper), acordam desesperados em um hotel de quinta categoria sem lembrar de nada o que acontecera na noite passada. Alan está com a cabeça raspada, e Stu tem uma tatuagem no rosto idêntica à do Mike Tyson. Em vez de um bebê, dessa vez o intruso é um macaco fumante e pervertido, enquanto que o desaparecido da vez não é Doug (Justin Bartha), e sim Teddy. E assim começa tudo de novo: o trio desmemoriado anda perdido em Bangkok em busca do paradeiro de Teddy.
      Com todos esses ingredientes, nada melhor do que a mesma equipe de sempre para não deixar o ritmo lento tomar conta de toda a projeção. Alan continua sendo o mais sem noção do trio, dono de uma infantilidade e uma ingenuidade hilárias. Phil, mesmo com ar de garotão, demonstra ser o centro da razão do trio, além do mais, ele é um pai de família, e tem que ter alguma responsabilidade.  Já Stu é o mais certinho quando sóbrio, mas comete as maiores loucuras quando está bêbado. Ainda temos a volta do impagável Chow (Ken Jeong), que surge no primeiro filme como "vilão" e nesse está mais inspirado ainda, mas ajudando o trio central.
      Uma coisa que não falta para "Se Beber, Não Case - Parte II" é coragem. São raras as comédias norte-americanas a fazer uso de nudez e de piadas escatológicas com tamanha naturalidade e eficiência. Logo na cena do hotel, somos apresentados ao "membro" de Chow. Algum tempo depois, vemos toda a perversão do pequeno macaco traficante. E mais adiante, naquela que é sem dúvida a cena mais hilária de todo o longa, uma, digamos, prostituta, faz revelações surpreendentes sobre a noite de amor que teve com Stu, deixando a todos perplexos. Impagável. Talvez uma das cenas mais engraçadas que já assisti.
      O problema do filme está no seu ritmo. Até a cena citada acima, o filme demora a engrenar. O primeiro ato, principalmente, é totalmente lento, algo não recomendado para comédias. São poucas as cenas realmente inspiradas, sem que a graça tenha sido forçada pelos gritos histéricos de Stu ou por qualquer tentativa de humor físico. O bom senso é por vezees deixado de lado, principalmente na cena em que um personagem descobre estar sem um dedo e nem se estressa. Algo corriqueiro, certo? Afinal, o que é um dedo pra quem nasceu com 20? Isso sem citar a cena da "entrada triunfal" no casamento, que parecer sido tirada de qualquer comédia da Sessão da Tarde.
      Mas com todos os percalços, "Se Beber, Não Case - Parte II" é uma diversão agradável. Sem o mesmo vigor e ritmo que fizeram a fama de seu predecessor, mas ainda assim um filme bom de assistir despretensiosamente, o que é o básico de qualquer comédia.




terça-feira, 13 de novembro de 2012

Opinião: "Tubarão"


Avaliação:

Título original: Jaws 
Gênero: Terror, suspense
Ano de lançamento: 1975
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Rob Scheider
             Robert Shaw
             Richard Dreyfuss
             Murray Hamilton

      "Contatos Imediatos de Terceiro Grau"; "E.T., o Extraterrestre"; "Indiana Jones"; "Jurassic Park"; "A Lista de Schindler"; "Amistad"; "O Resgate do Soldado Ryan"; "A.I. - Inteligência Artificial"; "Minority Report"; "Guerra dos Mundos". O que esses filmes de grande sucesso de público e crítica têm em comum? Todos eles foram dirigidos por uma das mentes mais brilhantes de Hollywood: Steven Spielberg, o diretor que tem mais filmes entre os 100 maiores sucessos de bilheteria da história. Mas talvez nenhuma das obras citadas acima teria existido se não fosse a primeira obra de sucesso de Spielberg: "Tubarão", de 1978, o longa responsável por abrir de vez as portas de Hollywood para um até então diretor desconhecido de apenas 27 anos, dono de uma mente cheia de ideias geniais.
      "Tubarão" não foi o filme de estreia de Spielberg, mas foi seu primeiro grande sucesso comercial, e é considerado o pai dos blockbusters, filmes arrasa-quarteirões que faturam milhões de dólares nas bilheterias. No filme, a cidade de Amity vive basicamente do turismo, por ser situada no litoral. O problema começa quando o corpo de uma garota é encontrado na praia com sinais de ataque de tubarão. O prefeito Larry Vaugh (Murray Hamilton) decide então omitir o caso da população para não afastar turistas e prejudicar o comércio, para desespero do chefe de polícia Martin Brody (Rob Scheider), que pretende bloquear as praias e alertar a população sobre o perigo iminente até que o tubarão seja capturado. Ele tem o apoio de Matt Hooper (Richard Dreyfuss), um competente oceanógrafo empenhado na mesma causa do xerife.
      Martin então decide ir à praia, não para se divertir, mas para tentar proteger de alguma maneira os turistas e sua própria família. Até que ocorre um novo ataque de tubarão, dessa vez à vista de todos, causando pânico na população. O prefeito se vê então na obrigação de caçar o predador, oferecendo uma recompensa para quem consiga capturá-lo. É aí que surge Quint (Robert Shaw), um bruto caçador de tubarões que pede uma quantia exorbitante para executar a tarefa. Inicialmente contrariado, o prefeito Larry aceita a proposta de Quint, que parte acompanhado de Martin e Matt na caçada.
      O primeiro ato serve para conhecermos Amity, sua dependência do turismo, seu ar de cidade interiorana. No segundo ato passamos a conhecer o vilão da história, sua força, a feracidade de seus atos. A atmosfera de tensão é construída gradativamente, prendendo o espectador cada vez mais na história. O que contribui com isso é o fato de o tubarão em si simplesmente não aparecer nas primeiras cenas, sendo apenas a sugestão de sua presença o suficiente para causar medo e apreensão. Azar que virou sorte, já que nas primeiras cenas o tubarão mecânico usado pela produção não funcionava corretamente, o que fez com que o diretor só fosse capaz de nos apresentar a ele a partir da metade do segundo ato.
      Spielberg conduz o filme magistralmente. Impecável nas cenas mais impactantes, o diretor cria um clima assustador, mesmo que a maioria das cenas se passe com dias ensolarados. É a sugestividade de um inimigo até certo ponto invisível, mas terrivelmente fatal. Ele cria planos interessantes, como nas cenas em que vemos como se estivéssemos no lugar do tubarão, acompanhando de baixo o balançar das pernas de uma criança na água. À medida que o predador chega mais próximo de sua vítima, a trilha sonora de John Williams dá um show à parte, aumentando a tensão. Difícil não lembrar da música-tema dos ataques do tubarão, muito parodiada nos anos seguintes e até os dias de hoje.
            Marcando época, o longa faturou três Oscars: trilha sonora, melhor montagem e melhor som. Indicado na categoria de melhor filme, perdeu para "Um Estranho no Ninho". Curiosamente não foi indicado na categoria de melhores efeitos visuais que, para o ano de 1975, são impecáveis. O tubarão mecânico, por exemplo, é perfeito, passando a sensação de realidade, o que torna tudo mais assustador. Uma pena perceber que efeitos mecânicos são cada vez mais raros em Hollywood, já que é muito mais fácil e prático criar uma cena artificial em computador do que criar algo original e mais crível, como faz brilhantemente Christopher Nolan em seus filmes, seja na trilogia "Batman" ou em "A Origem". Se "Tubarão" fosse feito na época atual, por outro diretor, certamente teríamos um animal feito em computador, artificial. Poderia até ser fantástico, muito bem feito, mas dificilmente alcançaria o nível de perfeição de Spielberg.





quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Opinião: "Jogando com Prazer"

Avaliação:

Título original: Spread
Gênero: Comédia, romance
Ano de lançamento: 2009
Direção: David MacKenzie
Elenco: Ashton Kutcher
             Anne Heche
             Margarita Levieva

       Ashton Kutcher é reconhecido geralmente por fazer caras e bocas em seus filmes e mais recentemente na série "Two And a Half Men", a qual passou a protagonizar após a saída de Charlie Sheen. Mas em sua participação em "Jogando com Prazer", fraquíssimo filme de 2009 dirigido por David MacKenzie, ele não se esforça nem para fazer isso. O roteiro conta a história de Nikki (Kutcher), um bon vivant que leva uma vida de luxo concedendo prazer a mulheres ricas de meia-idade em troca de um lugar confortável para morar. Sua vítima da vez é Samantha (Anne Heche), uma rica e solitária advogada. Até que ele conhece Heather (Margarita Levieva), uma bela garçonete que logo se mostra jogar o mesmo jogo de sedução que ele.
      Sem tentar se esforçar em fazer algo diferente do habitual, o diretor David MacKenzie opta por uma condução segura, trilhando por caminhos já percorridos em inúmeras comédias românticas comuns. Mas o diferencial de "Jogando com Prazer" é que, ao contrário da maioria dos filmes do gênero, esse não tem uma história no mínimo envolvente ou engraçada, personagens carismáticos ou um romance plausível. A comédia inicialmente prometida é praticamente esquecida, aparecendo somente em uma cena inspirada, onde Nikki finge estar falando ao telefone quando ele subitamente toca. As cenas de sexo, incomuns para o gênero, após um certo tempo tornam-se cansativas, como se os personagens vivessem apenas para isso.
      A trama é chata, absurdamente lenta. Os 98 minutos de duração parecem uma eternidade. Após um certo período, o filme não tem mais para onde ir, principalmente após o terceiro ato. A personagem de Anne Heche, importante no início, simplesmente some. O fraco roteiro torna os personagens vazios, o que contribui para enfraquecer ainda mais as atuações. Kutcher, como já mencionado, não faz nem suas habituais gracinhas, atuando no piloto automático.
      Pode-se considerar "Jogando com Prazer" um mais um filme descartável na carreira de Ashton Kutcher, com a exceção de que esse não serviu nem para encher ainda mais seus cofres, já que teve uma fraca recepção. Se você tiver tido estômago para assistir ao longa até o final, certamente perderá o apetite após ver o que a última cena o reserva. É algo que encerra com chave de ouro (ou não) essa perda de tempo cinematográfica.



sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Opinião: "Resident Evil 4: O Recomeço"

Avaliação:


Título original: Resident Evil: Afterlife
Gênero: Ação, ficção científica
Ano de lançamento: 2010
Direção: Paul W. S. Anderson
Elenco: Milla Jovovich
            Ali Larter
            Boris Kodjoe
            Shawn Roberts


      A franquia "Resident Evil" é livremente adaptada dos games. O primeiro longa da série foi divertido, trazendo perseguições realmente tensas e uma história razoavelmente envolvente. Nos filmes seguintes, no entanto, a qualidade decaiu gradativamente, chegando ao seu pior momento com "Resident Evil 4: O Recomeço".
      Dirigido novamente por Paul W. S. Anderson, o filme começa com os clones de Alice invadindo a sede da Umbrella Corp. em Tóquio. O líder da base, Albert Wesker, escapa, mas não sem antes injetar um soro em Alice, tornando-a uma humana comum novamente. Alice parte então em busca de Arcadia, lugar no Alasca onde estariam os humanos livres da infecção do T-Virus. Ao chegar lá, ela se depara com um lugar abandonado, e parte novamente em busca de sobreviventes, encontrando novos aliados e inimigos pelo caminho.
      O roteiro mais uma vez é um mero pretexto para as cenas de ação. Nenhum personagem é satisfatoriamente desenvolvido. Nem mesmo o reencontro entre dois irmãos carrega alguma emoção. As atuações são nulas, completamente vazias, com os personagens limitando-se a fazer caras feias nas cenas de tiroteio, que por sinal são bastante exaustivas. Em nenhum momento tememos pela vida de qualquer protagonista, já que não chegamos a sentir empatia por nenhum personagem. Isso sem contar a unidimensionalidade do vilão, que simplesmente mata um subordinado ao ser desobedecido.
      A direção de P. W. S. Anderson é problemática, limitada. O diretor contenta-se em criar um novo "Matrix", criando incontáveis cenas em slow motion, o já desgastado bullet time e as roupas pretas da protagonista. Até mesmo a cena em que Trinity pula de uma janela atirando é recriada, mostrando a total falta de criatividade do diretor.
      As cenas de ação são extremamente burocráticas, até cansativas pela repetição. Até mesmo os zumbis, que deveriam ser os principais antagonistas, são deixados de lado, aparecendo pouquíssimas vezes sem criar qualquer ameaça mais consistente. O final aberto deixa espaço para uma nova continuação, lançada em 2012, mas a decepção maior parte do fato que a franquia de jogos é muito mais tensa e interessante do que os filmes de "Resident Evil". A série mais famosa de jogos de terror merecia pelo menos um filme à altura.



segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Opinião: "Passe Livre"

Avaliação:

Título original: Hall Pass
Gênero: Comédia
Ano de lançamento: 2011
Direção: Peter Farrelly, Bobby Farrelly
Elenco: Owen Wilson
             Jason Sudeikis
             Jenna Fischer
             Christina Applegate
             Richard Jenkins
      Os irmãos Peter e Bobby Farrelly alcançaram o sucesso dirigindo filmes como "Débi & Lóide" e "Quem Vai Ficar Com Mary". Após um tempo fazendo filmes medianos, os dois voltam à sua melhor forma com a ótima comédia "Passe Livre".
      No filme, Rick (Owen Wilson) e Fred (Jason Sudeikis) são dois homens de meia-idade, casados, mas que não conseguem conter seus instintos adolescentes de olhar para belas mulheres. Os dois imaginam que se fossem solteiros fariam de tudo, e conseguiriam a mulher que quisessem. Indignadas com as atitudes adolescentes de seus maridos, Maggie (Jenna Fischer) e Grace (Christina Applegate) decidem dar a eles um passe livre, que consiste em uma semana de folga do casamento, sem compromisso algum, para que ambos façam o que quiserem sem nenhum tipo de remorso.
       Assim como em "Débi & Lóide", os diretores apostam no constrangimento de seus protagonistas para fazer rir, como na cena da masturbação de Fred no carro, ou naquela que considero a melhor cena do filme, quando Rick e Fred zombam dos donos da casa que visitavam e de seus convidados sem ao menos imaginar que estavam sendo vistos e ouvidos. Mas se no filme estrelado por Jim Carrey os personagens principais divertiam por serem absolutamente retardados, aqui temos uma dupla mais experiente, com trabalhos fixos e um lar para sustentar, mas igualmente estúpida e hilariante.
       O longa é absurdamente engraçado, provocando gargalhadas do início ao fim. Fred mostra-se completamente sem noção (no bom sentido) ao chegar de carro a um bar e carregar consigo um capacete de motociclista, dizendo que "as gatas adoram motos". Os dois quarentões saem na noite em busca de mulheres, mas o esforço deles é frustrado pela sua total incapacidade de chegar em uma garota, usando de cantadas enferrujadas que parecem ter sido retiradas do programa do Rodrigo Faro, "O Melhor do Brasil", gerando mais momentos hilários.
      Talvez a maior força do filme esteja em usar algumas piadas várias vezes sem parecer forçado, fazendo com que elas tornem-se mais engraçadas a cada vez que são usadas, como as "fotos mentais" tiradas por Fred no início e por Rick perto do fim do filme. Ou quando Fred revela o "truque do sexo oral" em uma mulher para usá-lo mais tarde e causar uma briga na última cena. Outras cenas também merecem destaque, como por exemplo quando os protagonistas, acompanhados de alguns amigos, experimentam brownies preparados com maconha. Mas realmente inesquecíveis são as piadas escatológicas, como quando um personagem diz que tem que ir ao banheiro de casa porque sabe que depois tem que tomar banho, ou quando uma coadjuvante senta-se na banheira fazendo força para vomitar e acaba sujando toda a parede do banheiro após alguns "gases não controlados".
      O que torna os protagonistas tão frustrados e engraçados é o fato de não conseguirem ficar com mulher nenhuma mas mesmo assim sentirem remorso, ao passo que suas esposas curtem a semana de folga sem qualquer arrependimento, o que era a verdadeira premissa do "Passe Livre". Com um elenco inspirado e diretores mais inspirados ainda, o filme é a prova de que Peter e Bobby Farrelly não perderam o jeito das suas melhores comédias.